Atletas e Comissão do Juventude relatam descaso durante o campeonato baiano feminino
Por Redação
18:07 | 12/03/2020
O Juventude foi o vice-campeão Baiano Feminino em 2019 (Foto: Felipe Nascimento)

Por: Rafik Oliveira

O Juventude Esportiva de Vitória da Conquista, fundado pelo ex-jogador Claudir, e detentor de boas participações no campeonato baiano feminino, chegando a duas finais – edições de 2016/2017 e 2019, disputou a última edição do estadual na cidade de Belo Campo, à 60km da Capital do Sudoeste Baiano. Era a primeira vez em que a cidade do interior sediaria jogos de uma competição de renome no cenário feminino. Após o acordo entre o Presidente e a Prefeitura, o clube passou a se chamar Juventude Esportiva de Belo Campo e, também, tendo alteração em suas cores originais. Do alviverde, a equipe passou a ser azul e amarelo.

Claudir, atual presidente do Juventude, após ser campeão brasileiro em 1988 pelo Bahia, se mudou para Americana, jogar pelo Rio Branco. Lá, fez amizades, e com essas, conseguiu o contato do então técnico da equipe feminina, Rodrigo Ferraz, que fazia um bom trabalho à frente de seu projeto denominado Meninas de Americana, na própria cidade do interior de São Paulo.

Claudir já é andarilho com seu clube de futebol feminino Juventude Esportiva, chegou a disputar o Campeonato Baiano em quatro localidades diferentes, nunca se fixando em uma cidade – exceto Vitória da Conquista, onde o clube foi fundado – lugar em que ficou por mais de uma edição da competição.

Nas vésperas do Campeonato Baiano Feminino começar, Claudir entrou em contato com o treinador de Americana, fazendo o convite, e oferecendo valores, tanto pra ele, quanto para as suas atletas, para disputarem a competição durante os meses de outubro e novembro. Ainda na conversa, Claudir afirma a necessidade de trazer apenas cinco jogadoras, pois o próprio se responsabilizaria de completar a equipe com outras atletas de seu conhecimento.

Dito isso, a proposta foi aceita pelas mulheres e pelo treinador, que desembarcaram em Belo Campo no final de setembro. Porém, a realidade encontrada na cidade, em relação a quantidade de atletas citada no parágrafo acima, era muito diferente do que o presidente havia prometido. Nenhuma jogadora de Belo Campo tinha experiência em competições de futebol profissional e, nas duas primeiras semanas de treinamento, não se era possível fazer um coletivo sequer, pela falta de um time completo para trabalhar o ataque e a defesa.

Das atletas que havia prometido, vieram duas de Vitória da Conquista, outras duas de Paratinga, e uma de Minas Gerais. Totalizando dez, com as cinco de Americana. Sendo assim, a comissão técnica teve de pedir mais jogadoras; Claudir autorizou, nas mesmas condições financeiras, para que viessem mais quatro de São Paulo. Apenas após a primeira fase do campeonato que chegaram mais duas, de Ilhéus.

De acordo com o que foi passado pelas componentes que faziam parte da comissão, os motivos que serão apresentados, foram providenciais para que os envolvidos pudessem perceber as atitudes negativas por parte do presidente do Juventude.       

Segundo informações, e como era uma área aberta e visível a todos que estavam no estádio, era possível ver Claudir na tribuna do estádio, gritando e xingando as atletas durante as partidas. Xingamentos estes que davam pra ouvir durante a transmissão dos jogos pela rádio local.

Após algumas rodadas, e com a percepção das pessoas sobre esse problema, foi pedido por Claudir, um toldo, que ficaria na lateral do gramado, para que ele, de forma exclusiva, pudesse assistir às partidas e continuar a dar instruções para as atletas, sem que essa fosse a sua função. A ação foi observada e questionada por alguns espectadores que ali se faziam presentes.

Nos dias seguintes (segunda e quinta) após derrota e empate contra o Lusaca, por 1×0 e 1×1 respectivamente, Claudir marcou duas reuniões com a equipe e o técnico na casa onde residiam. A informação passada pelas pessoas que participaram da reunião, é que houve muita discussão, com reclamações e assuntos até desnecessários que eram tratados por ele nessas tais reuniões.

Mesmo com a vitória na última partida da fase de grupos contra o Vitória da Conquista, por 2×0, e a primeira colocação do grupo6 assegurada, Claudir queria demitir o técnico para assumir o cargo (mesmo estando suspenso de estar nos campos por quatro anos pela Federação Bahiana). A diretoria, e também as atletas não admitiram isso. As jogadoras chegaram a alegar que se isso acontecesse, elas iriam embora juntamente com o técnico – já que vieram do mesmo lugar (nove delas). Então Rodrigo foi mantido no cargo.

Um dos integrantes da comissão, após perceber o que estava acontecendo, depois da partida contra o Lusaca, foi tentar conversar com Claudir, para tentar acalmá-lo e dizer que esses xingamentos eram totalmente desnecessários, pois haviam vários fatores envolvidos que poderiam influenciar nesses resultados negativos. A resposta foi: ‘’Você é um moleque muito ousado. Que dia eu já te dei moral pra falar comigo, seu moleque? Se limite, se limite, se limite. Presta atenção no que eu vou falar com você, moleque. Você se limite a dirigir a palavra a mim, e vocêestá proibido de encostar um dedo no meu projeto. Me respeite, seu moleque!”

Antes da partida contra o Vitória da Conquista, fora de casa, as atletas ainda não haviam recebido um centavo sequer de salário. Houve uma reunião da comissão, entre Claudir, treinador, o prefeito e o secretário de esportes, aonde foi desmentido por Claudir, qualquer hipótese de que ele havia prometido valores por jogos para as jogadoras. Foi então que o treinador Rodrigo mostrou para o prefeito e comissão, a proposta de ajuda de custo e prêmios por vitórias, acordados em áudios de Claudir, e foi onde ficaram cientes da situação, e começaram a agilizaros pagamentos.

A prefeitura, que havia se comprometido com Claudir, no início da parceria, de ceder o estádio, casa, remédios e alimentação das jogadoras, também teve que arcar com os valores prometidos pelo presidente do Juventude. Na primeira partida contra o Vitória da Conquista, realizada em Belo Campo, todo o valor da bilheteria foi cedido a Claudir. A partir do segundo jogo, contra o Lusaca, em que os valores passaram a ser arrecadados pela Secretaria de Esporte e Lazer, e então foram devidamente passados para as atletas, pelos jogos até então disputados.

Na partida da semifinal, fora de casa, contra o Jequié, já no final da segunda etapa, houve um princípio de confusão entre jogadoras do Jequié e Juventude. Claudir, – que já havia sido punido por quatro anos pela FBF, por ter se envolvido numa confusão na partida entre Juventude x Vitória da Conquista, invadiu o campo, e segundo informações postadas pela diretoria do Jequié, instruiu e incentivou a todo o momento a violência. A Polícia Militar também teve de conter o filho de Claudir que, assim como o pai, também invadiu o campo para agredir atletas e dirigentes do Jequié. Confira o post da página do Jequié Esporte Clube:

(Foto: Reprodução / Redes sociais)

Na Fonte Nova, segundo as informações passadas, houve outro princípio de discussão com jogadoras e comissão. No vestiário, o presidente ficou cerca de 20 minutos criticando a forma de a equipe jogar, falando tudo em nome dele, e que ninguém que estava ali presente, entendia mais de futebol do que ele, dentre outros assuntos também desnecessários que, querendo ou não, poderia desestabilizar o emocional das atletas. De acordo com um membro da comissão, a arbitragem chegou a vir duas vezes na porta do vestiário para pedir que as atletas fossem para a escada de acesso ao gramado. Foram momentos de tensão e pânico, vividos no palco que seria a realização de um sonho, para os que estavam ali presentes.

Ainda sobre este jogo contra o Bahia, quando o placar estava 0x0, Claudir gritava da arquibancada para dar instruções. Assim que o Juventude tomou o gol, ele se calou. Quando o jogo foi empatado, ele voltou novamente a gritar. Depois que o Bahia fez seus gols que lhe garantiram a vitória, se calou novamente.

Mesmo que o Juventude conseguisse o título baiano, conseguisse a vaga, e disputasse a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, Claudir já dava indícios de que não iria permanecer em Belo Campo. Em reunião de uma hora, na semana da final do campeonato, ele declarou isso para atletas e técnico, em áudio gravado, de que não precisava de prefeitura nenhuma para manter o clube dele: “Eu sou auto-suficiente para conseguir o que eu quero e não dependo de M* de prefeitura para jogar nenhum campeonato”.

Dias antes da partida em Salvador, a esposa do treinador Rodrigo, que reside em Americana, iria ter um filho, e o técnico já havia se comprometido com a diretoria, de que no mesmo dia que chegasse após a final, viajaria para São Paulo, que havia alinhado isso com a Diretoria do clube antecipadamente, independente do resultado da final. Nisso, Claudir havia se comprometido a ficar com as atletas até que cada uma retornasse para sua cidade.

Claudir que, na parada em Feira de Santana para as atletas jantarem, transformou o momento em uma guerra sem fim, ao desembarcar em Belo Campo, desce do ônibus, sem se despedir de ninguém e nem olhar para trás. À tarde, no caminho para Conquista, Rodrigo e o Secretário o viram, e ele não se manifestou sobre nada.

Depois de meses pós-campeonato, ligamos para o treinador e algumas atletas que representaram o Juventude no Campeonato Baiano 2019 e a resposta foi a mesma, “Não recebemos nem o agradecimento por ter jogado e treinado duro para conquistaro vice-campeonato Baiano Feminino de 2019”.

Além de tudo isso que foi citado acima, ainda foi encontrado, no site da Receita Federal, o CPNJ do Juventude Esportiva de Vitória da Conquista de forma inapta. Ainda sim, o clube continua participando de competições estaduais, sem que haja uma fiscalização ou punição por parte da Federação Bahiana de Futebol. Clique aqui para conferir o documento.

Até a data desta matéria, o treinador Rodrigo Ferraz ainda não recebeu os valores prometidos por Claudir, e as jogadoras estão sem receber os dois últimos jogos e prêmios por vitórias alcançadas.

Os relatos acima foram disponibilizados por membros da comissão que fizeram parte da campanha vice-campeã Baiana no ano de 2019. Os autores de todas as informações aqui prestadas pediram sigilo, até que os mesmos queiram se pronunciar com seus nomes.

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